“A terra não é mercadoria”: líder Yanomami cobra compromisso da sociedade com a floresta
Davi Kopenawa está em Portugal para uma agenda que vai de participação no festival literário de Óbidos a encontro com o Presidente António José Seguro
Pedir a Portugal e ao mundo apoio para a proteção da floresta é a missão da liderança indígena Davi Kopenawa, que está em visita ao país. “O papel do homem branco é dar apoio. Defender os yanomami é também proteger a terra, a água e o futuro de todo o planeta”, afirma o yanomami, em entrevista ao DN Brasil.
O reconhecido líder conversou com o jornal no festival literário de Óbidos, onde foi um dos convidados. Na mesma cidade, encontrou-se ontem com o Presidente António José Seguro, a quem transmitiu a mesma mensagem: que a população napa (como chama o povo não indígena) conheça a realidade das comunidades que vivem na floresta, respeite os seus direitos e ajude a pressionar os governos e os responsáveis pela destruição da Amazônia.
“Estamos cuidando desta terra há muitos anos, somos o povo originário. A floresta sofre e todo o mundo sofre com a destruição”, reflete a liderança, que tem no currículo um prêmio Right Livelihood, em 2019, conhecido como “Nobel Alternativo”, e a Legião de Honra francesa, em 2025. Em 2021, tornou-se membro colaborador da Academia Brasileira de Ciências.
Davi relata saber dos problemas climáticos que afetam várias localidades. “A cidade já tá mudando. A força da água tá levando a casa, levando carro, e o sol queima tudo”, diz. O Brasil tem enfrentado episódios recentes de extremos climáticos, com ondas de calor, chuvas intensas, enchentes e secas prolongadas. Segundo relatório do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), 2025 foi marcado por sete ondas de calor e por períodos de seca severa ou extrema em até 503 municípios, além de chuvas que provocaram alagamentos e deslizamentos.
O autor do livro A Queda do Céu, também revela preocupação com os rumos políticos do Brasil após as eleições presidenciais de domingo. O líder indígena recorda que, durante a presidência de Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, o povo “sofreu muito com garimpo, fome e doenças levadas pelo homem branco”. O governo de Jair Bolsonaro adotou medidas para incentivar o garimpo e simplificar procedimentos de mineração na Amazônia, enquanto a atividade ilegal avançava sobre terras indígenas.
A crise foi tornada pública em 2023, quando a divulgação de imagens de crianças e adultos indígenas em estado de extrema vulnerabilidade levou o governo de Lula a decretar emergência em saúde pública no território. “O filho do Bolsonaro não é amigo da gente. Ele não reconhece o meu povo yanomami, não reconhece a região onde a gente mora. Mas ele quer ser presidente só para explorar e maltratar o meu povo yanomami”, detalha.
Kopenawa também tem medo do interesse americano e outros estrangeiros na terra indígena. “O americano quer a nossa terra, mas não é deles, é nossa. Terra não é mercadoria, é o nosso patrimônio e não vamos deixar que levem”, defende. A Terra Indígena Yanomami é uma área protegida por lei, destinada à posse permanente e ao usufruto exclusivo dos povos indígenas que nela vivem. Com cerca de 9,6 milhões de hectares, distribuídos entre os estados do Amazonas e de Roraima, o território teve a sua demarcação homologada em 1992.
O indígena cita que a terra tem riquezas como nióbio e outros materiais que são necessários para a indústria tecnológica. Esta é uma das razões para ter críticas ao consumismo desenfreado e ao vício em dispositivos móveis. “É uma doença, está todo mundo viciado. Eles querem tirar nossos minérios para depois fazer celulares. Hoje todo mundo fica só olhando o celular, até os velhinhos. Não quer mais olhar a estrela, para o sol, para o mundo, nem sonhar as pessoas sonham mais”, reflete.
Além do Fólio, onde participoun de várias atividades e se encontrou com o Presidente António José Seguro, a agenda de Kopenawa em Portugal inclui uma passagem por Coimbra nesta segunda-feira para participar de uma oficina no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, às 11h30, e da aula inaugural dos programas de doutorado do centro, às 16h30, sobre os saberes yanomami e o futuro do clima. Na quarta-feira, 21 de outubro, o líder indígena estará em Lisboa para uma conversa sobre a importância dos sonhos na transmissão dos conhecimentos yanomami, das 15h00 às 17h30, no Auditório B1 da NOVA FCSH. Na capital ainda estão sendo articuladas outras agendas como uma visita ao Parlamento.
FONTE: DN BRASIL




Comentários